O Cenário do Mercado na visão dos Compradores
O Certajano ouviu os compradores de diversos produtos agrícolas sobre o cenário atual e perspectivas futuras
Por: Israel Rosa da Silva. Agrônomo da CERTAJA Desenvolvimento.
O comprador é o elo entre a produção agrícola até o consumidor final. Muitas vezes ele é alvo de críticas por nem sempre pagar o preço desejado pelo produtor. Porém esta figura é fundamental na cadeia do agro, pois através dele os produtos chegam até as prateleiras dos supermercados do Brasil e também de outros países.
Mercado da Pecuária Aquecido
A atividade de pecuária está presente em muitas propriedades e o RS é uma referência nacional quando se trata de qualidade de carne bovina. O associado da CERTAJA João Marques de Borba é pecuarista e comprador de gado. Natural de Triunfo mas residente em Bagé, João atua como comprador para o frigorífico Minerva na região da fronteira com o Uruguai. Ele explica que o mercado da carne atualmente se encontra aquecido devido ao embarque de grande quantidade de gado vivo para exportação, sendo o principal destino a Turquia. Com a demanda maior que a oferta, o preço da carne subiu nos últimos meses e existe uma dificuldade de reposição de animais para engorda. Segundo João, embora o preço de mercado esteja alto, a rentabilidade do produtor que apenas realiza a engorda é baixa por que o preço de compra do gado magro também é alto. “Quem está se capitalizando é o produtor do terneiro”, afirma João. Segundo ele, outro fator é o aumento do número de Recuperações Judiciais dos frigoríficos de menor porte, devido ao alto preço praticado e pequena margem de venda ao consumidor. Sobre perspectivas futuras, João espera uma redução de preço da carne devido a redução da exportação para Europa e China.
Mercado do Arroz de olho na Exportação
Luciano Machado atua na compra e venda de Arroz e Milho na Agroindústria CERTAJA há 7 anos. Segundo ele as previsões de El Niño para a safra têm movimentado os mercados globais de grãos. Luciano informa que a Ásia, grande produtora e consumidora de arroz está suspendendo exportações para garantir suprimento de alimento para este período climático desafiador. Esta menor oferta de arroz asiático no mercado, além de impulsionar os preços para cima está abrindo oportunidade para o produto brasileiro.

“Através de corretoras aqui no Brasil estamos conseguindo exportar nosso arroz para países como a Venezuela com preços competitivos” salienta Luciano. Porém o mercado de arroz vem de um período bastante turbulento com preços muito amassados, frustrações de safra e produtores descapitalizados. Segundo Luciano, os produtores não estão vendendo o arroz pois os preços ainda não cobrem os custos de produção. As previsões climáticas e a alta dos insumos causada pela guerra também deixam os produtores assustados e cautelosos. Sobre perspectivas futuras para o preço do arroz, Luciano se mostra otimista e salienta a exportação e uma possível de redução de área plantada como fatores que poderão valorizar o produto no mercado.
Tensões Globais e Mercado Interno afetando a Citricultura
O associado e cliente da CERTAJA Marcio Luciano de Mello é produtor e comprador de Bergamota em Montenegro. Ele conta que atualmente produz de 50 a 70% da fruta que comercializa, buscando o restante no mercado local. A empresa recebe as frutas diretamente do pomar e realiza a limpeza, retirada das folhas e galhos e acondiciona em caixas padronizadas. Segundo Marcio, a produção é comercializada em vários estados, principalmente São Paulo e Paraná. Seus principais clientes são os atacadistas dentro das CEASAs, que são os centros de distribuição localizados nas maiores cidades do país.

Ele explica que os atacadistas fornecem para as redes de supermercado, necessitando de um fluxo de frutas durante todos os meses do ano. Segundo Marcio o ano está sendo desafiador por dois motivos. O primeiro é a indústria de sucos desaquecida. Segundo ele, países como a África do Sul, Egito e China, que são grandes produtores de suco não estão conseguindo exportar o produto para a Ásia devido à Guerra no Irã. Isto gera um excesso de oferta no mercado derrubando os preços e a demanda do suco brasileiro. “É uma reação em cadeia. A indústria não compra frutas no nosso mercado e essa produção vai toda para o comércio” explica Márcio. O segundo motivo é o mercado brasileiro estagnado. O cliente final está consumindo menos frutas e pressionando toda a cadeia. Marcio explica que não tem problemas de inadimplência devido à qualidade dos clientes, porém os atacadistas estão exigindo um prazo maior para pagamento das frutas. Como perspectivas futuras Marcio enxerga uma safra de Bergamota Montenegrina mais tranquila pois nesta época é a única a ser colhida no Brasil. Porém as condições de mercado não trazem otimismo em relação à preços.
Cenário Desafiador para Melancia
A Melancia possui grande importância econômica na região de Atuação da CERTAJA. Para entender o mercado da fruta o Certajano conversou com o goiano Horeny Junior. Produtor e comprador de Melancia, Junior atua em todas as regiões produtoras do país. Seus maiores clientes são os atacadistas das CEASAs do Paraná, Rio de Janeiro e Goiás. Ele conta que atualmente está comprando frutas da safra goiana, porém a colheita no estado foi bastante comprometida devido ao ataque de doenças nas lavouras. Junior enxerga um mercado bastante desafiador. Segundo ele, o preço adequado da melancia para remunerar a cadeia produtor, comprador e comerciante seria na faixa entre R$ 1,00 e R$ 1,50 por quilo. Porém o mercado não está aceitando esse preço. “Estamos vendo uma baixa aceitação no mercado. O produto sai muito caro para o consumidor final e não roda. Cada ano está ficando pior” afirma Junior. Segundo ele, os atacadistas estão exigindo um prazo cada vez maior para o pagamento das frutas e está ocorrendo um aumento da inadimplência. Questionado sobre perspectivas futuras, Junior é enfático: “Não vejo uma luz no fim do túnel”.
O que podemos observar no relato dos compradores é que cada vez mais os eventos macro como o El Niño, as guerras e a economia do país estão entrando na porteira da propriedade. O produtor deve estar atento a estes movimentos para a tomada de decisões, visando a sustentabilidade da propriedade rural.
